NOMINALISMO PROTESTANTE
Lutero adotou o nominalismo, provavelmente porque, para ele, de alguma forma, parecia como um antídoto contra a teologia escolástica católica, com sua ênfase sobre o natural, teologia racional que ele considerava hostil à fé. Se os filósofos nominalistas (como seu próprio professor Gabriel Biel) estivessem certos, somos completamente empurrados em direção à fé para conhecer a Deus verdadeiramente. Para Lutero, o nominalismo mantinha Deus transcendente e também mantinha a razão humana em seu verdadeiro lugar — incapaz de chegar a Deus e fazer dele seu prisioneiro.
A teologia protestante, entretanto, mergulhou no nominalismo de Lutero. Bem como, o nominalismo penetrou mais tarde em toda cultura principalmente através do Iluminismo, sendo sugado e levado em seu DNA pela América do Norte, como por nenhuma outra cultura ou sociedade. Inconsistentemente, é claro, porque o “americanismo” é concebido pela maioria dos americanos como uma essência, um pressuposto universal, o que dificilmente se encaixa com o nominalismo!
Nominalismo, é claro, é a crença de que beleza, verdade e bondade são nada mais do que conceitos, idéias convencionais, construções. Eles não têm nenhuma realidade ontológica. Eles não são essências eternas ou universais; tais não existem. Levado para a teologia, então, tem-se o voluntarismo na doutrina de Deus. Deus não tem uma natureza eterna de caráter; ele é puro poder e vontade. Deus é tudo o que Deus decide ser. O resultado é que o “bom” é qualquer coisa que Deus ordena, e Deus não ordena nada pelo fato de algo ser bom. É bom porque Deus o ordena.
Voluntarismo, na forma do “deus absconditus” (Deus oculto), foi uma lisonja metafísica que Lutero deu a Deus. Ele achava que isso protegia a divindade de Deus. Essa ideia foi empregada por alguns teólogos reformados e aparece em todo período pós-Reforma quando alguns calvinistas (e outros) afirmam que “tudo o que Deus faz é bom e automaticamente correto apenas porque Deus o faz.”
Isso torna Deus verdadeiramente monstruoso, pois, dessa forma, ele não possui um caráter reto. “Bom” se torna o que Deus decide e faz e, em última análise, perde totalmente o sentido, pois não tem conexão essencial com qualquer coisa que conheçamos como “o bom“.
Até agora, eu culpava Lutero por inserir o nominalismo/voluntarismo na teologia protestante (apesar de reconhecer que a teologia luterana não é, por si só, nominalista). Mas, tão culpado quanto é Zwinglio, que inflexivelmente afirmou que Deus pode fazer o que quer e não há nenhuma razão para ele desejar uma coisa e não outra.
Este é o problema fundamental do movimento “jovem, revoltoso, Reformado”. Não é apenas o seu calvinismo, é o voluntarismo nominalista em sua doutrina de Deus. Este Deus poderia simplesmente mudar de ideia e decidir que a salvação é pelas obras e não pela graça. Sua fidelidade transforma-se num filete de decisão ocasional de sustentar suas promessas, mas nada que faça parte da essência de Deus de forma que a fidelidade faça parte do seu ser.
A palavra “confiar” do termo “confiar em Deus“, assume então dois significados radicalmente diferentes. Para o nominalista/voluntarista ela significa “esperar que Deus decida manter as suas promessas“. Nada faz disso algo infalível. Deus não tem um caráter eterno que o impede de quebrar suas promessas. Se ele decidiu algo, então isso seria bom, pois “bom” é tudo o que Deus decide e faz. Para o realista, “confiar” significa “estar seguro de que Deus não pode quebrar suas promessas“, porque Deus é a própria bondade e não pode mentir ou contradizer a si mesmo ou ir contra a sua palavra.
A cultura moderna está impregnada com nominalismo. Ouça as máximas: “A beleza está nos olhos de quem vê“; “Você tem a sua verdade e eu tenho a minha“; “O mais importante é ser verdadeiro consigo mesmo“, etc., etc. Para a maioria, beleza, verdade e bondade foram relativizadas e individualizadas. Não me admira que a nossa sociedade seja uma bagunça!
Mas é fato que esse nominalismo entrou no DNA teológico dos reformadores, da mesma forma que em nosso DNA cultural. Ele mostra-se de muitas maneiras diferentes: individualismo radical nas igrejas; cristianismo desigrejado; cristianismo montado para se ajustar às necessidades dos indivíduos.
Calvinistas conservadores são especialmente bons em apontar os sintomas do nominalismo na sociedade secular e nas igrejas (embora nem sempre identificam a raiz da doença). Mas eles não são sempre tão bons em reconhecer o nominalismo em seu próprio pensamento.
Sem dúvida, nem todos os calvinistas são nominalistas, mas a minha experiência é que muitos deles subitamente tornam-se nominalistas/voluntaristas quando pressionados a explicar em que sentido Deus é bom, levando em consideração o seu decreto para não salvar muitas pessoas que ele poderia salvar, afinal a salvação é decisão e realização unica e exclusiva de Deus, sem qualquer cooperação das criaturas. A resposta geralmente é: “Bem, tudo o que Deus faz é bom apenas porque Deus o faz.” Isso é puro nominalismo/voluntarismo e elimina qualquer caráter estável, duradouro e eterno de Deus, de tal forma que ele poderia, se quisesse, mudar de ideia e decidir não salvar ninguém. E isso esvazia a palavra “bom” de qualquer significado. É simplesmente o que Deus faz, ponto final.
O nominalismo é, na minha opinião, o erro teológico mais atual. Eu não vou chamá-lo de heresia (isso porque como Católico tenho boas razões). Mas eu vou dizer que vai contra a natureza do pensamento cristão sobre Deus e sobre a realidade por cerca de 1500 anos (antes do nominalismo aparecer e ganhar destaque na filosofia européia e, em seguida, na Reforma e no Iluminismo). Por ser uma heresia, leva a um esvaziamento de sentido nos principais conceitos cristãos. É claro, nem todo os protestantes seguem a lógica do nominalismo até as últimas consequências. Mas com o tempo, o nominalismo é como uma doença que se espalha e mata a cultura e solapa as bases sólidas do cristianismo, não de forma imediata, nem mesmo num espaço curto de tempo, mas em algum momento do futuro. A maioria dos protestantes sob sua influência simplesmente escolhe, de forma inconsistente, não seguir sua lógica inteiramente. Mesmo assim ele ainda tem seus efeitos perniciosos em seu pensamento.
A única maneira de evitar o relativismo absoluto em um ambiente cultural nominalista é com a ética do mandamento divino. “O mal é aquilo para o qual Deus diz não“. Mas a questão permanece e mentes curiosas querem saber “Por quê?”. Por que Deus diz não para, digamos, mentira? Há algo intrinsecamente errado, ruim, prejudicial na mentira ou Deus apenas não gosta dela por algum ou mesmo por nenhum motivo?
A teologia do Logos diz que há uma ligação, uma conexão intrínseca entre o caráter de Deus e o certo e o errado no mundo. E entre a verdade de Deus e a nossa. “Toda verdade é a verdade de Deus.” A razão (consciência), curada pela graça, se aproxima mais de Deus pela luz da revelação e da fé, e é capaz de compreender, até certo ponto, a verdade, a beleza e a bondade de Deus presentes na criação. É claro, por causa da nossa finitude e por causa da queda, pelo menos neste mundo, nunca teremos uma compreensão completa ou perfeita delas. E nosso alcance delas nunca será autônomo. Precisamos da revelação e da fé, a “iluminação do entendimento” conforme Agostinho, iluminação e sabedoria de Deus. Mas não há nenhuma arbitrariedade na verdade, beleza e bondade, nem mesmo no próprio Deus. Elas são parte dele, da sua natureza eterna, e resplandecem em sua criação. A filosofia cristã as procura e, pela graça de Deus, pode compreendê-las, pelo menos parcialmente.
Eu temo que todos nós estejamos, em certa medida, sofrendo uma lavagem cerebral pelo nominalismo. Ele é uma parte do DNA da teologia protestante que nós só podemos resistir se o reconhecermos e lutarmos contra ela. Este é, na minha opinião, um dos principais propósitos da boa educação cristã — escolas cristãs de todos os tipos e em todos os níveis. Livrar jovens católicos de influências nominalistas, provenientes da mídia e da cultura popular, que inundam suas mentes. Não se trata de aprender um conjunto de regras. Trata-se de ver a realidade de maneira diferente — a maneira que os cristãos pré modernos a entendiam — como se cobertos com a grandeza da verdade, beleza e bondade de Deus. E trata-se de enxergar a nós mesmos de maneira diferente — a maneira que os pré-modernos viam a si mesmos — como criaturas feitas à imagem de Deus capazes, pela luz da graça de Deus, de conhecer valores universais e descobrir a beleza, verdade e bondade (não criá-los assim como a cultura moderna). ( Petrus Alois Rattisbone)
Fantástico meu caro Adeilton, se continuares assim tornate-as um verdadeiro apologista
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